Emergência dos gestos articulatórios na aquisição do tap em sílaba CVC: aspectos acústicos

Visualizar/ Abrir
Data
2021-08-20Autor
Melcheque, Patrícia Pereira
Metadata
Mostrar registro completoResumo
O presente trabalho busca investigar o processo de aquisição do tap em sílaba CVC, em posições medial e final de palavra, com base na Fonologia Articulatória (BROWMAN e GOLDSTEIN, 1986). O [ɾ] é um dos últimos segmentos a surgir na fala da criança, apresentando diversas alterações durante o seu período de aquisição. Trabalhos de base gerativa analisaram a aquisição de estruturas silábicas e dos fonemas no português brasileiro. Apesar das contribuições trazidas por essas pesquisas, o detalhe fonético, que não é percebido auditivamente, não era considerado como pista para a marcação de possível contraste fonológico. Trabalhos mais recentes, de base emergentista, como Rodrigues (2007), consideram o gesto articulatório como primitivo de análise. Assim, é possível representar o detalhe fonético no nível gramatical. Neste sentido, o presente estudo investiga a presença de contrastes encobertos nas produções do tap na aquisição fonético-fonológica do português brasileiro. Foram analisados os dados orais de um sujeito controle, de quatro sujeitos transversais e de um sujeito longitudinal. As coletas foram gravadas com um gravador digital Zoom H4n em uma cabine acústica no Laboratório Emergência da Linguagem Oral (UFPel). O rótico se encontrava em sílaba tônica, em contexto de [a], [i] e [u], em posição medial e final de palavra. Foi elaborado um corpus de tríades de palavras, com a presença do rótico, sua omissão e a presença do ditongo palatal, apresentado por meio de um instrumento de nomeação de imagens. A análise acústica revelou 28 possíveis contrastes encobertos para 129 possibilidades de produção do tap na fala dos informantes transversais. Na fala do informante longitudinal, foi identificada a presença de 51 possíveis contrastes encobertos nas 142 possibilidades de ocorrência do segmento. A variante rótica mais empregada na fala das crianças foi o tap, porém, também foram identificadas produções de vibrante, aproximante retroflexa, aproximante alveolar, fricativa glotal e tap fricatizado. Ao não produzirem o tap, foi possível inferir que as crianças utilizaram principalmente estratégias de redução gestual e substituição de gestos, ainda que gestos intrusivos também tenham ocorrido. A inspeção visual dos espectrogramas e a análise da trajetória formântica foram fundamentais para evidenciar possíveis contrastes encobertos em andamento na fala das crianças. Ao observar o comportamento dos elementos vocálicos, a partir da comparação entre esses e a porção final de uma vogal nuclear, constatou-se que apenas os elementos vocálicos produzidos em contexto de [u] tendem à centralização. Tais resultados indiciam, portanto, uma relação entre o elemento vocálico e a vogal nuclear em sílaba CVC. Sendo assim, espera-se que este trabalho tenha contribuído para evidenciar que produções gradientes, previstas pela Fonologia Articulatória, são detectadas no processo de emergências dos segmentos róticos. A análise dos dados, sob a perspectiva de um modelo teórico que considere o caráter dinâmico da linguagem, viabiliza a interpretação de produções gradientes como pistas para a emergência da aquisição do sistema de contrastes da língua.
Collections
Os arquivos de licença a seguir estão associados a este item:
