Sementes de transformação: agência e protagonismo das mulheres agricultoras em Concórdia no sistema de parcerias com a agroindústria Sadia (1970-2010)
Resumo
Esta tese investiga o protagonismo das mulheres agricultoras no município de Concórdia (SC), entre os anos de 1970 e 2010, com foco nas estratégias de agência desenvolvidas diante das limitações impostas pelo sistema de parcerias da agroindústria Sadia. O estudo parte do contexto de modernização agrícola e da integração de produção promovida pelas agroindústrias, que impactou profundamente as relações sociais, econômicas e de gênero no meio rural. A pesquisa busca compreender como essas mulheres enfrentaram os desafios impostos por um modelo de desenvolvimento pautado na lógica produtivista e hierarquizado por gênero, bem como suas formas de organização e resistência frente à invisibilização do seu trabalho e à restrição de autonomia. Os objetivos incluem analisar as condições estruturais que influenciaram a atuação das mulheres nas propriedades rurais, nos sindicatos e em instâncias de representação, assim como identificar suas práticas cotidianas que revelam agência e resistência no interior do sistema agroindustrial, problematizando sua atuação. A metodologia adotada baseia-se na história oral, com uso de entrevistas semiestruturadas, e no aporte da micro-história, permitindo a valorização das experiências individuais e a reconstrução de trajetórias a partir da perspectiva dos sujeitos. Teoricamente, o trabalho dialoga com a noção de experiência e agência de E.P. Thompson e com a categoria analítica de gênero proposta por Joan Scott, que permite compreender como as relações de poder se inscrevem nas práticas sociais e nas identidades femininas no meio rural. A análise documental e o cruzamento com fontes secundárias contribuíram para contextualizar os relatos. Os principais resultados indicam que, apesar da concentração de poder nas mãos da agroindústria e da reprodução de papéis de gênero tradicionais, as mulheres agricultoras desenvolveram estratégias de enfrentamento, como a manutenção de quintais produtivos, a criação de pequenos animais fora do controle empresarial, a participação ativa em redes de solidariedade, sindicatos e movimentos sociais. A tese conclui que o protagonismo feminino no campo não se expressa apenas por meio da militância explícita, mas também por ações cotidianas que desafiam, reconfiguram e tensionam as estruturas sociais e econômicas vigentes. A partir dessa análise, a pesquisa contribui para o aprofundamento da compreensão histórica sobre a participação das mulheres no meio rural, oferecendo subsídios para reflexões críticas sobre políticas públicas, práticas agroecológicas e os processos de democratização das relações de gênero no campo.

