Ideologemas sobre o ensino/aprendizagem de língua estrangeira na formação de professores: ideologias linguísticas acerca do contato entre português e espanhol

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Data
2023-12-21Autor
Aires, Débora Medeiros da Rosa
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Nas aulas de língua estrangeira (LE), estão em funcionamento e em contato diferentes
sistemas linguísticos: a(s) língua(s) materna(s) dos estudantes e do professor
(coincidentes ou não), a língua alvo da aprendizagem e todas as outras línguas que
os participantes do processo conheçam (MOZZILLO, 2005). O papel a ser
desempenhado pela língua materna (LM) é um dos fatores relevantes nesse contexto.
A abordagem do uso ou não da LM nas aulas de LE é guiada por ideologias
linguísticas, que podem ser entendidas como sistemas de ideias e crenças sobre as
línguas associadas a dimensões sociais, culturais e políticas (DEL VALLE, 2007;
WOOLARD, 2007). As ideologias linguísticas fundamentam-se e articulam-se através
de ideologemas, que são postulados ou princípios subjacentes que funcionam como
pressupostos que naturalizam e normalizam determinadas representações
sociolinguísticas dentro dos sistemas ideológicos dos discursos (ANGENOT, 1982;
ARNOUX; DEL VALLE, 2010). Este trabalho objetiva analisar ideologias linguísticas e
ideologemas implicados na relação entre o par de línguas português e espanhol, a
partir da visão de estudantes e de professores formadores do curso de Letras –
Português e Espanhol de universidades públicas brasileiras do Rio Grande do Sul e
de instituições uruguaias e argentinas que ofertam formação docente para atuação
como professores de português. Realizou-se a geração de dados para a pesquisa a
partir de questionários nos quais se solicitou que os participantes expressassem de
que maneira percebem a relação e o contato entre as línguas em sua própria
aprendizagem e nas aulas que ministram, se os professores formadores abordam
esse tema e como o fazem. Fez-se uma análise qualitativa dos aspectos ideológicos
que emergiram das manifestações dos professores e dos estudantes, à luz do
conceito de ideologias linguísticas. Também foram propostos ideologemas nos quais
as ideologias se apoiam e que demonstram os pressupostos das percepções,
concepções e abordagens da relação entre LM e LE. As discussões dos resultados
permitiram perceber a associação ideológica a diferentes visões. Por um lado,
emergiram ideologias de reconhecimento das diversas funções que podem ser
desempenhadas pela LM e de valorização da construção do bilinguismo através da
inter-relação entre os conhecimentos linguísticos dos sujeitos. Por outro lado,
destacaram-se ideologias que idealizam um ambiente monolíngue, no qual haja uma
delimitação estrita das línguas e se empregue exclusivamente a LE, evitando
possíveis interferências e mantendo a “pureza” do sistema da LE. Observou-se que
ainda é recorrente na formação de professores e nas práticas docentes a mobilização
de ideologias conflitantes frente à relação entre as línguas presentes no ambiente das
aulas de LE, variando entre atitudes de mais aceitação ou de total proibição do uso
da LM. Isso reforça a necessidade de reflexões explícitas sobre os fenômenos de
contato como características inerentes ao ensino/aprendizagem de LE e que podem
ser explorados de modo estratégico e raciocinado (MOORE, 2003).
