Quando ignorância é força: ética e o vazio da experiência humana em distopias dos séculos XX e XXI
Resumo
O presente trabalho tem como objetivo analisar os desdobramentos da ética nos
romances distópicos Nós (1924), de Evgeni Zamiátin, Admirável Mundo Novo
(1932), de Aldous Huxley, 1984 (1949), de George Orwell, Fahrenheit 451 (1953), de
Ray Bradbury, A Parábola do Semeador (1993), de Octavia Butler, Oryx e Crake
(2003), O Ano do Dilúvio (2009) e MaddAddão (2013), trilogia de Margaret Atwood,
Não me abandone jamais (2005), de Kazuo Ishiguro, e Jogos Vorazes (2008), de
Suzanne Collins, fundamentando-se na tese de que, em contextos de distopia, se
estabelecem diferentes configurações de crise ética por conta de tensões entre a
ideologia de instituições dominantes e a liberdade do sujeito, de modo a se promover
a pobreza da experiência como estratégia de manutenção do poder. Para este
estudo, partiu-se de uma divisão cronológica do corpus literário entre obras da
primeira metade do século vinte e deste ponto adiante, baseando-se nos diferentes
contextos políticos, históricos e sociais de publicação que possivelmente
influenciaram o gênero literário. O primeiro grupo de obras tem como elemento
principal a utopia do totalitarismo resultante de um cenário de pós-guerra, fome,
progresso científico, surgimento e ascensão do nazismo; o segundo grupo traz a
utopia do transumanismo e do progresso científico capitalista oriundo de um
momento em que o capitalismo avança rumo ao neoliberalismo, estando em
destaque a marginalização social e a exploração ambiental. A partir de então,
realizou-se uma análise dos conceitos de ética trabalhados por diferentes teóricos,
de modo a chegar-se ao entendimento de que a ética é o exercício do pensamento
sobre as atitudes da conduta humana em prol do respeito e da alteridade. Com base
nesse argumento, ao fim deste estudo percebeu-se que em ambos os grupos de
distopias há um denominador comum: em qualquer cenário distópico, seja em
espaço de Estado totalitário ou Estado descentralizado, os indivíduos são
esvaziados de sua subjetividade e preenchidos com uma ideologia moral que
controla o experienciar dos sujeitos e que toma o espaço da ética na vida do
indivíduo.

