Variação lexical no 9º ano do Ensino Fundamental II: um estudo sobre crenças dos estudantes e processamento de variantes regionais
Resumen
O presente trabalho assume uma interface entre a Psicolinguística e a Sociolinguística
para abordar um tema ainda pouco pesquisado no Brasil: o processamento da
variação linguística no nível lexical em relação com as crenças sobre essa variação.
Com base nisso, o objetivo geral foi verificar de que forma as crenças linguísticas de
estudantes do Ensino Fundamental II se relacionam com o processamento de uma
variante lexical regional. Os objetivos específicos foram: investigar o efeito da variação
linguística diatópica no processamento de palavras; analisar quais são as crenças de
estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental II sobre a variação linguística regional,
no que tange ao nível lexical, e relacionar as crenças de estudantes sobre a variação
linguística diatópica com os dados de processamento. Para isso, tomou-se como base
estudos empíricos sobre o processamento da variação (Henrique, 2016; Marcilese et
al., 2017; Azalim et al., 2018; Freitag; Souza, 2019; Souza; Freitag, 2021; Freitag; Sá,
2019; Jakubów; Corrêa, 2019) e estudos sobre crenças linguísticas (Marques;
Baronas, 2015; Frasson, 2016; Santos, 2017; Silva, 2019; Correia, 2022). Para atingir
os objetivos propostos, foram aplicados uma tarefa de decisão lexical e um
questionário de crenças com estudantes do 9º ano do Ensino Fundamental de uma
escola estadual de educação básica localizada na cidade de Bagé (RS). Além disso,
foram aplicados três estudos-piloto para trazer mais confiabilidade aos dados
coletados. Os resultados encontrados nessa tarefa mostram que a variante regional,
mesmo sendo utilizada cotidianamente pelos estudantes, demandou maior esforço
cognitivo no processamento, pois os estudantes estão inseridos em um ambiente
escolar, isto é, estão em um contexto de letramento, em que são incentivados a
fazerem uso da variante padrão. Além disso, a modalidade de apresentação escrita
pode ter influenciado o processamento. No que diz respeito às crenças, percebeu-se
que os estudantes têm a percepção de que existe uma língua padrão e correta, o que
os leva a não reconhecerem, muitas das vezes, a diversidade linguística que trazem
para dentro da sala de aula. Além disso, a maioria dos estudantes reconhecem a
existência da variação regional, no entanto, verificou-se que nem todos percebem que
dentro do Rio Grande do Sul também existe variação. Na análise comparativa
realizada entre os resultados encontrados na tarefa de decisão lexical e no
questionário de crenças, verificou-se que o bom desempenho no processamento dos
estímulos não teve relação com crenças mais positivas sobre a variação linguística,
sendo o contrário também válido. De maneira geral, constatou-se que as crenças
linguísticas dos estudantes não apresentaram relação com o processamento das
palavras. Conciliar uma abordagem psicolinguística com conclusões sociolinguísticas
pode ajudar a melhorar a compreensão sobre como a variação linguística é pensada,
representada e processada pelos estudantes concluintes do Ensino Fundamental II e
trazer implicações para o ensino de língua materna.

