Associação da atividade física na saúde física e mental de adultos com depressão durante a pandemia de COVID-19: achados da Coorte PAMPA
Resumo
Estima-se que em 2030 a depressão será a doença mais frequente no mundo e
também a principal causa de incapacidade global. Além disso, é possível observar
aumento na prevalência de depressão e ansiedade após grandes eventos como
desastres naturais, crises econômicas ou de saúde como a pandemia de COVID-19.
Sabe-se que a prática de atividade física (AF) gera benefícios para população,
possibilitando redução dos sintomas depressivos em nível populacional, redução na
ansiedade e declínio subjetivo da memória. Ainda, são escassos os estudos
investigando comportamento de AF durante a pandemia na trajetória dos sintomas
depressivos, ansiedade e função cognitiva em pessoas diagnosticadas com
depressão durante pandemia. O presente estudo utilizou dados da Coorte PAMPA,
um estudo de coorte ambispectiva com adultos do Rio Grande do Sul. Foram utilizados
questionários online autoaplicáveis em três ondas consecutivas que ocorreram em
junho/2020, dezembro/2020 e junho/2021, sendo medidas as variáveis AF, sintomas
depressivos e ansiosos e função de memória subjetiva com o prévio ao
distanciamento social como referência de tempo. Foram verificadas as associações
transversal e longitudinal da prática de AF antes e durante a pandemia de COVID-19
com sintomas de depressão, ansiedade e declínio subjetivo de memória em adultos
que vivem com depressão. Entre os diferentes desfechos, foi analisado o impacto da
AF (volume em minutos; tipo: aeróbio, força ou combinado; e local de prática: fora de
casa, em casa ou em mais de um local) na trajetória dos sintomas depressivos,
ansiedade e função cognitiva na população acometida por depressão com
consequências do distanciamento social e a pandemia de COVID-19. Modelos
lineares generalizados foram usados para investigar interação entre tempo e AF e
influências nos sintomas, ajustando para variáveis de confusão (idade, sexo, cor da
pele, status conjugal, escolaridade, atividades diárias da rotina durante a pandemia e
a presença de outras doenças crônicas).O declínio subjetivo da memória foi avaliado
usando modelos multivariados de regressão de risco proporcional de Cox para obter
a razão de risco (HR) e respectivo intervalo de confiança de 95% (IC95%) das análises
bruta e ajustada. Entre os respondentes, 424 indivíduos apresentaram depressão e
foram incluídos no estudo. Foi observada uma trajetória não linear de depressão
durante o primeiro ano da pandemia de COVID-19. A AF foi associada a uma trajetória
mais lenta de sintomas depressivos (inclinação: -1,89; IC 95%: -3,34, -0,43 pontos).
Os participantes que continuaram ativos apresentaram menor risco de declínio
subjetivo da memória durante o acompanhamento do que aqueles que permaneceram
inativos no mesmo período (HR: 0,20; IC 95%: 0,07, 0,55). Aqueles que não
praticaram AF na onda 1 apresentaram sintomas de ansiedade piores do que aqueles
que praticaram AF em casa ou fora de casa no mesmo período. Além disso, os
participantes ativos durante os três primeiros meses da pandemia apresentaram
escores de sintomas de ansiedade mais baixos do que aqueles que permaneceram
inativos no mesmo período. Em suma, a prática de AF atenuou o impacto da pandemia
de COVID-19 nos sintomas depressivos em adultos vivendo com depressão no sul do
Brasil. Persistir em ser fisicamente ativo foi associado a menores sintomas de
depressão e ansiedade e menor risco de declínio subjetivo da memória. Assim, futuras
intervenções presenciais combinadas com estratégias para prática de AF devem ser
enfatizadas.