O autor-criador e o(s) outro(s): a estética da vida na escrita de diários de irmãos agricultores
Resumo
Este estudo analisa os diários de três irmãos agricultores e como eles inscrevem as suas vidas, esteticamente, no ato da escrita do cotidiano rural. O referencial teóricometodológico
principal do estudo foi o Círculo de Bakhtin e demais autores que possuem estudos baseados na teoria bakhtiniana. A tese está ancorada no pressuposto do ato ético e responsável como interação possível entre os dois mundos: mundo da vida e mundo da teoria. Os diários foram problematizados,
portanto, como ato ético e responsável nos quais os agricultores realizam a interação entre os dois mundos nos registros cotidianos. Foram analisados vinte e um diários produzidos pelos três irmãos Schmidt em diferentes momentos da vida de cada um, entre o período de 1972 a 2007. Aldo iniciou a escrita de diários em 1972. Em 1976, casou-se e permaneceu escrevendo os diários com a nova família,
perpetuando a prática até os dias atuais. Já Clemer foi encarregado pelo pai para realizar a escrita coletiva da família, os diários; portanto, não eram registros pessoais como os de Aldo, mas apontamentos da família. Clemer escreveu somente na casa do pai, enquanto solteiro. Em 1979, casou-se, constituiu nova família e parou de escrever, deixando os diários na casa paterna para que os demais irmãos
continuassem escrevendo. De maneira diferente da de Clemer e de Aldo, o irmão Clenderci deu início aos diários depois que se casou, em 1983, escrevendo até o ano de 1992. A tese mostra que há a interação entre o mundo da teoria e o mundo
da vida por meio do ato único e responsável da escrita dos diários. A autoria de cada um dos três irmãos reflete como a forma composicional da organização dos diários é semelhante; porém, em seus aspectos arquitetônicos, são diferentes. Cada autor tem seu projeto arquitetônico e escreve os enunciados do dia de acordo com sua posição axiológica, registrando à sua maneira e organizando esteticamente segundo seu autor-criador, criando sentidos diferentes na sua produção. Portanto, a estética da vida é a própria existência dos autores-criadores Aldo, Clemer e Clenderci no ato da escrita dos diários, representando a sucessão de atos vividos no cotidiano da vida rural.