Corpo, abjeção e erotismo em A céu aberto, de João Gilberto Noll, e Mãos de cavalo, de Daniel Galera
Resumo
Esta dissertação discute o entrelace entre João Gilberto Noll e Daniel Galera na
composição artística de representação de crise e constituição de identidade pós moderna, sob o uso do corpo centrado na abjeção e no erotismo, em dois romances:
A céu aberto (1996) e Mãos de cavalo (2006). O trabalho, de caráter qualitativo, é
realizado a partir de análise bibliográfica, utilizando as teorizações referentes ao pós modernismo de Hutcheon (1991), Perrone-Moisés (2016), Jameson (1991; 2006),
Villaça (1996) e demais autores, bem como estudos sociológicos de Foucault (2014),
Bataille (2021), Kristeva (1982), Frank (1991), Bourdieu (2008), Bauman (2005;
2021), Han (2017a; 2017b; 2021), entre outros, para refletir quanto às
categorizações identitárias, a inter-relação com o corpo, a abjeção e o erotismo,
além de suas manifestações em sociedade. Ademais, para a análise do objeto, este
estudo abarca investigações da área da literatura brasileira contemporânea. As
narrativas de João Gilberto Noll e Daniel Galera apresentam usos de subjetividade
textual que enfatizam o sentimento de deslocamento e fuga, atestando ora para a
busca identitária, ora para metamorfose do Eu no mundo e na alteridade, compondo
uma visão de sujeito em oscilação entre seu Eu e o Outro, em uma amálgama que
transpõe a indefinição pós-moderna. O corpo serve como ponto de confluência entre
os dois romances, à medida que sua materialidade se torna o único ponto
compreensível em mundos e identidades que, aos olhos dos protagonistas, estão
em constante metamorfose, instáveis e fragmentadas. É a partir dele que são
representadas suas angústias identitárias, em meio a violências sexuais e
automutilações; do vômito, gozo, fezes, mijo, suor e sangue, o corpo expressa-se. A
abjeção e o erotismo atuam, neste sentido, como artifícios para compreender estas
experiências corporais. De uma abjeção social e física, na qual o ato erótico é usado
para assegurar uma dominância sócio-identitária, bem como para representar o
desejo irracional de pertencimento identitário, a uma abjeção psicológica, na qual o
ato erótico alinha-se à mutilação da carne para anestesiar e delinear o ser identitário,
as artes literárias de ambos os autores traçam seu intricado caminho.