Leituras e leitores no contexto prisional: o projeto Carrinho da Leitura como forma de remição penal (Presídio Estadual de Camaquã/RS, 2017-2023)
Resumo
O presente trabalho, desenvolvido no curso de pós-graduação em História da Universidade Federal de Pelotas, pretende, alicerçado nos princípios teóricos e metodológicos da História Cultural, dar visibilidade à existência de cultura escrita no ambiente prisional. Nessa perspectiva, buscamos analisar a constituição do projeto de remição da pena pela leitura desenvolvido no Presídio Estadual de Camaquã, chamado “Carrinho da Leitura: estimulando a leitura como forma de libertação”, assim como os modos de ler e a apropriação da leitura realizada por pessoas privadas de liberdade. O projeto “Carrinho da Leitura” foi criado em 2017 com intuito de estimular e de tornar a prática da leitura acessível a todas as pessoas privadas de liberdade naquele presídio. Assim, precedeu a regulamentação da remição da pena pela leitura, que ocorreu no ano de 2021. O recorte temporal selecionado para a pesquisa é o período que compreende os anos 2017 a 2023, visto que, nesse intervalo de tempo, ocorreu a criação e a implantação do projeto. Já a escolha do ano de 2023 como marco final deve-se ao fato de ser o momento em que ocorre a pesquisa de campo e a coleta das fontes. Alicerçados em uma metodologia qualitativa de cunho etnográfico e aliados à pesquisa documental, buscamos compreender os mais diferentes aspectos do fenômeno analisado e suas particularidades. Além dos documentos institucionais, os relatórios de leituras, constituídos por escritos, formam um corpus documental diversificado que permite diferentes possibilidades de análise do tema investigado. Conhecer a relação que os diferentes públicos estabelecem com a leitura e a escrita, neste caso, os aprisionados, é fundamental para a história da leitura, e, mais especificamente, para o sucesso dos projetos de remição da pena pela leitura. Dito isto, buscamos colaborar nos estudos sobre as práticas de leitura e de escrita inseridas em um contexto singular, que é o contexto prisional, desconhecido por grande parte da sociedade.