Notas sobre epistemologia em Análise de Discurso: a formação teórica de uma Semântica Materialista
Resumo
A reflexão epistemológica é um ponto de chegada, e não um projeto de partida para o empreendimento intelectual de Michel Pêcheux, a Análise de Discurso (AD). O que se configura como uma diferença curiosa com textos produzidos por ele no mesmo período, mas assinados com o pseudônimo de Thomas Herbert. Nestes, a divisão social do trabalho científico e as condições de produção das práticas científicas são pontos nevrálgicos, e a instância discursiva irrompe nos fins de análise. Longe de afastarmos esta dupla condição, mobilizamo-la como índice potencial de um empreendimento-ausente, capturado apenas como sintoma e que coloca em relação necessária (i) a especificação da teoria do discurso e da análise de discurso (ii) o desenvolvimento metódico da AD, implicando a delimitação teórica do seu campo e do seu objeto, e (iii) um investimento epistemológico sobre a prática científica na sua relação inextrincável com o ideológico e o político. Motivados por esse sintoma, nosso objetivo geral é o de analisar o funcionamento da reflexão epistemológica na constituição da AD, tendo como referência a formação teórica em que se situa; para tanto, constitui o material de trabalho desta tese o ensaio Reflexões sobre a situação teórica das ciências sociais e, especialmente, da psicologia social, publicado por Pêcheux em 1966 sob o pseudônimo Thomas Herbert. Esta primeira produção escrita colocada em jogo pelo autor na cena intelectual francesa trata-se, antes de tudo, de uma intervenção política que entrecruza a sua participação em grupos de trabalho de base althusseriana e o desenvolvimento de sua tese em Epistemologia/Psicologia Social. O objetivo desta(s) nota(s), assim traçado, implica três princípios teóricos e uma suspeita. O primeiro princípio é o de que (1) há uma reflexão epistemológica, ainda que em estado prático, consubstancial à constituição teórica da AD. O segundo princípio é o de que (2) esta reflexão se conforma relacionalmente e, portanto, articula-se no todo complexamente-estruturalmente-desigualmente-determinado das formações teóricas. O terceiro princípio é o de que, por ser de ordem relacional, (3) o efeito de unidade do todo e das suas regionalizações é um processo determinado pela historicidade das relações. A suspeita, por fim, é a de que esta reflexão epistemológica, produzida por uma posição teórica materialista, exige que a AD (se) coloque em jogo (como) um discurso teórico que reflete sobre si. As análises realizadas levam-nos a delinear os primeiros movimentos de uma aventura teórica. Seu estatuto, dá-nos o próprio Herbert: qualquer figura solitária é capaz, no máximo, de um itinerário. Para ser aventura, há que ser compartilhada. Por isso, não é cedo para que se reconheça a historicidade da prática teórica como processo sem Sujeito nem Fim(s), no qual as complexas relações sociais, movidas pelo motor da luta de classes, fazem emergir dos “homens” os sujeitos, produtos sempre provisórios. O efeito-Herbert, aí, funciona como um nome próprio em relação ao sistema conceitual do qual ele é o suporte. Índice de uma posição que, enquanto tal, não é idêntica a si mesma, não existe por si só e tampouco é imutável - o que só é apreensível se remontarmos a sua formação histórica no todo em que se insere e intervém.