"Quem vai pagar pelo sangue dos nossos irmãozinhos?” Trauma e memória nas cartas dos sobreviventes do Massacre do Carandiru
Resumo
Esta dissertação investigou a elaboração traumática – que se transforma em narrativa – e a sua relação com a construção da memória social, a partir das cartas escritas por sobreviventes do Massacre do Carandiru, doze ao total. Dessas, onze pertencem ao acervo da Comissão Teotônio Vilela de Direitos Humanos, sediada no Arquivo Público do Estado de São Paulo, e uma encontra-se transcrita no artigo de Regina Pedroso (2012). O objetivo principal foi o de analisar como as escritas presentes nessas correspondências articulam o trauma individual com a memória coletiva, desafiando tanto o silêncio institucional quanto às narrativas oficiais sobre o episódio. A pesquisa explorou como o 'indizível', expresso nas cartas, contribui para a construção de arranjos subjetivos de memória e influencia os debates contemporâneos sobre o sistema prisional e os direitos humanos no Brasil. A metodologia adotada foi de natureza qualitativa, com base na análise documental e na perspectiva narrativa. A análise das cartas foi realizada a partir de três eixos principais: a reconstrução cronológica do Massacre, a investigação dos temas
recorrentes nas cartas (violência policial, trauma e resistência), e a exploração das intersecções entre memória e justiça. Essas missivas constituem testemunhos políticos e instrumentos de resiliência do sujeito em suportar a dor, para apropriar-se
das marcas da violência e ressignificá-las por meio do narrar. Nesse sentido, sua preservação se justifica a partir de sua inscrição na memória coletiva. Essa inscrição abre caminhos para uma ruptura com a lógica da impunidade, ao reivindicar um espaço para a justiça anamnética, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa e comprometida com os direitos humanos.

