Vestígios de uma voz: testemunho e ficção em A costa dos murmúrios, de Lídia Jorge
Resumo
Esta dissertação tem por objetivo investigar o "teor testemunhal" do romance A costa dos murmúrios (1988), da escritora portuguesa Lídia Jorge. A investigação centra-se
na relação entre as experiências de catástrofes históricas e sua manifestação na linguagem literária. Para tanto, fez-se necessário uma breve retomada da teoria sobre a relação entre literatura e história para destacar a configuração de um evento histórico em um texto literário. Conta-se com o aporte teórico do conceito de testemunho a partir das formulações, sobretudo, de Beatriz Sarlo e Seligmann-Silva. Em A costa dos murmúrios a transitoriedade política da voz narrativa reconfigura sua experiência histórica para trazer à cena um recorte da Guerra Colonial que diz respeito ao extermínio da população negra civil moçambicana por soldados portugueses durante a política colonial da ditadura do Estado Novo. No romance, o testemunho se inscreve na própria discussão sobre a configuração de uma representação estética que assuma sua relação com a realidade através da compreensão de que a passagem para o literário empreende um processo de
recuperação ambíguo cujo teor de verdade se dá pela forma com que essa realidade é apreendida, elaborada e comunicada. O estudo colabora com a compreensão de que a via ficcional pode comportar uma forma de manifestação do testemunho que atua na elaboração dos traumas decorrentes de eventos históricos.