A ficção científica como crítica das alianças entre capitalismo, colonialismo e ciência moderna: uma proposta de epistemologia regenerativa para um mundo em crise, de Frankenstein ao Solarpunk
Resumo
A modernidade ocidental instituiu uma série de cisões fundantes – natureza/cultura,
razão/emoção, sujeito/objeto, humano/não humano – que moldaram as formas
dominantes de conhecer e habitar o mundo. Tais separações foram historicamente
aprofundadas por três mecanismos interligados: o capitalismo, que instrumentaliza a vida
por meio da expropriação e do extrativismo; o colonialismo, que impõe uma lógica de
domínio geográfico e epistêmico; e a ciência moderna, que, ao buscar predizer e
controlar, reduz o mundo a objeto de manipulação. Essas dinâmicas de separação
manifestam-se nas crises contemporâneas – climática, social, política e epistêmica – que
têm em comum a fragmentação como sintoma estrutural. Partindo deste diagnóstico, esta
tese propõe compreender a ficção científica como uma ferramenta crítica das alianças
entre capitalismo, colonialismo e ciência moderna por sua capacidade de evidenciar e
tensionar os dualismos que promovem. Este trabalho argumenta que sua própria
estrutura narrativa – marcada pelo estranhamento e pelo exercício cognitivo – inspira um
modo específico de conceber práticas “regenerativas” de produção de conhecimento. A
partir convergência entre a epistemologia social e feminista de Helen Longino (2002) com
a “regeneração” proposta por Fabio Scarano no contexto da sustentabilidade planetária,
proponho a concepção de uma “epistemologia regenerativa” como uma forma de
conhecer que não apenas expõe, mas busca reparar as feridas abertas pelas cisões
modernas, promovendo práticas de conhecimento situadas, relacionais e sensíveis à
alteridade. Com esse fim, a tese realiza um percurso panorâmico pelas obras de ficção
científica anglófona, do século XIX ao XXI, analisando como o gênero responde às
transformações históricas das alianças entre capitalismo, colonialismo e ciência
moderna. O corpus analisado inclui: Frankenstein (1818/1831), de Mary Shelley; A
Máquina do Tempo (1895), de H. G. Wells; Terra das Mulheres (1915), de Charlotte
Perkins Gilman; Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley; Duna (1965), de Frank
Herbert; Os Despossuídos (1974), de Ursula K. Le Guin; A Parábola do Semeador (1993),
de Octavia Butler; Aniquilação (2014), de Jeff VanderMeer; To Be Taught if Fortunate
(2019), de Becky Chambers; e a duologia Monge e Robô (2021-2022), também de Becky
Chambers. A análise dessas obras permite verificar como a ficção científica expõe as
lógicas de expropriação, controle e assimilação que sustentam as alianças entre esses
três elementos, ao mesmo tempo em que buscam propor formas alternativas de relação
com a natureza e a diferença, respondendo a um mundo em crise ao fornecer um espaço
de experimentação e reinvenção das nossas formas de conhecer e habitar o mundo.
